O poder invisível das Big Techs


Atualmente, relatórios da GSMA, DataReportal e ITU apontam que aproximadamente 5 bilhões de pessoas possuem um smartphone conectado à internet e que cerca desse mesmo número acessa ao menos uma rede social, o que corresponde a aproximadamente 60% da população mundial. O tempo médio diário de uso é de cerca de 2h30, segundo a Soax Research e a DataReportal.

Em geral, acredita-se que o uso das redes sociais é gratuito e custeado por propagandas. Contudo, com uma análise um pouco mais profunda, não é difícil concluir que as redes sociais utilizam as pessoas de forma muito mais agressiva do que o contrário.

Inicialmente, os dados deixados pelos usuários nas buscas eram utilizados apenas para melhorar o serviço — um ciclo de reinvestimento voltado para o usuário. No entanto, sob pressão por lucros exponenciais, o Google descobriu o superávit comportamental: dados que excedem a necessidade de melhoria do serviço e que podem ser processados por “inteligência de máquina” para gerar produtos de predição.

Hoje, uma infinidade de dados é coletada durante o uso dessas plataformas, como:

  • links acessados
  • tempo de visualização
  • posts
  • conversas em chats
  • curtidas
  • pausas em vídeos
  • temas recorrentes
  • horários de acesso
  • localizações
  • dados biométricos

Tudo isso é coletado, armazenado e processado para montar perfis matemáticos capazes de prever o comportamento de cada usuário.

Esses dados e modelos são usados de inúmeras formas e com finalidades que vão muito além de simplesmente empurrar propagandas e aumentar os lucros das empresas responsáveis.


“Se você não está pagando, o produto é você”

Enquanto as pessoas usam as redes sociais para entretenimento, comunicação e informação, as plataformas usam as pessoas coletando massivamente seus dados durante horas, todos os dias. Esses dados são processados e formam uma base de análise capaz de montar um perfil pessoal contendo:

  • interesses políticos
  • fragilidades emocionais
  • padrões de consumo
  • vícios
  • relações pessoais
  • círculo de amizades
  • locais frequentados
  • horários e tempo de acesso
  • problemas pessoais
  • tempo de atenção
  • questões de saúde
  • entre outros

Para que tudo isso possa ser processado, não é necessário que a pessoa expresse explicitamente essas informações. O sistema reconhece padrões e os compara com bilhões de outros perfis dos quais já possui dados.

Com os modelos montados e bem alimentados, torna-se possível obter um ativo que até então praticamente não existia: a garantia de sucesso para seus clientes.

Uma vez que conseguem prever o comportamento de grupos inteiros de pessoas com precisão satisfatória, não é difícil emplacar um produto, impulsionar uma ideia, alavancar vendas de forma massiva ou até influenciar os rumos de um acontecimento com apenas alguns cliques. O algoritmo sabe para quem mostrar, quando mostrar, como mostrar e por quanto tempo mostrar para conseguir o resultado desejado.

As plataformas buscam, em princípio, três coisas:

  • maximizar o engajamento
  • maximizar o crescimento da plataforma
  • maximizar os lucros publicitários

O algoritmo já aprendeu que, para alcançar esses objetivos, não precisa se prender à verdade, pois mentiras performam até seis vezes melhor do que fatos verdadeiros. Também não precisa se limitar ao equilíbrio, já que o extremismo e a polarização geram muito mais engajamento. O que o algoritmo precisa é entregar a dose de dopamina desejada, da forma certa, para que o usuário continue na plataforma fazendo as engrenagens girarem.

O ser humano foi transformado em matéria-prima, assim como o petróleo, a proteína animal ou os minérios. Cada movimento humano se transforma em dados. Cada dado ajuda a construir um modelo pessoal. Cada modelo se torna capaz de prever as ações do indivíduo e dos grupos nos quais está inserido.


Mundos particulares

Um dos pontos mais críticos da relação entre indivíduo e rede social é o fato de que, de certa forma, cada usuário do sistema possui seu próprio mundo particular, montado exclusivamente para ele de acordo com aquilo que deseja consumir — mesmo que nem perceba isso.

Os algoritmos utilizam os dados coletados massivamente para entender as preferências e rejeições do usuário e, a partir disso, montar um fluxo de conteúdo que o mantenha cada vez mais preso à plataforma.

As notícias que chegam a um conservador não são as mesmas que chegam a um socialista. E, mesmo quando são, chegam de formas diferentes, por fontes distintas e com abordagens cuidadosamente adaptadas para prender a atenção do indivíduo com base em conteúdos anteriores que já obtiveram esse resultado.

Assim surgem as “bolhas”: recortes virtuais do mundo real que buscam maximizar a retenção do usuário na plataforma.

Isso gera uma erosão do senso de realidade em escala gigantesca, uma vez que cada pessoa passa a “viver” em um mundo cuja base de conhecimento e padrões é diferente da dos demais, em maior ou menor grau.

Recortes virtuais do mundo real Recortes virtuais do mundo real


Um poder acima do econômico

Deixando de lado o fator econômico — que por si só já possui um peso fora do comum, visto que as Big Techs movimentam trilhões de dólares anualmente e estão entre as instituições mais ricas de todos os tempos — o verdadeiro poder aqui analisado é outro:

  • o conhecimento profundo da mente humana, de suas nuances, desejos, medos, vícios, fraquezas e forças
  • a capacidade de prever movimentos individuais e sociais com a praticidade de alguns poucos cliques
  • a força para alterar a realidade percebida, em maior ou menor grau, por bilhões de pessoas
  • o oferecimento de um ativo único aos seus clientes: a certeza do sucesso
  • o poder de se colocar vários passos à frente em decisões críticas para as próprias empresas

Elas controlam:

  • o fluxo de informação
  • a distribuição de notícias
  • a visibilidade pública
  • o alcance político
  • a opinião coletiva
  • a percepção social

Não é raro alguém dizer algo como: “eu estava pensando em uma coisa e, quando abri meu celular, lá estava ela”. Sem dúvida, algumas vezes isso pode ser fruto de coincidência ou probabilidade. Mas, em certa medida, isso realmente ocorre: os modelos criados a partir dos dados de cada indivíduo, coletados durante anos, tornam-se capazes de prever padrões que a mente humana dificilmente consegue compreender.

É como se, às vezes, essas plataformas pudessem ler pensamentos antes mesmo de eles serem plenamente formulados.

Isso representa um poder que nem mesmo os tiranos mais sádicos da história chegaram a sonhar possuir, pois era algo inconcebível. Eles se contentavam em dominar corpos e, quando muito, pressionar mentes em busca de determinados resultados. A tecnologia atual, porém, permitiu a criação de um abismo de forças entre o homem comum e corporações cujas dimensões são, na prática, quase incalculáveis.


O poder instrumentário e o “Grande Outro”

Shoshana Zuboff, em A Era do Capitalismo de Vigilância, argumenta que essas empresas detêm um novo tipo de poder: o poder instrumentário, que visa automatizar a própria sociedade.

Diferentemente do totalitarismo, que utilizava a violência, o instrumentarismo usa o “Grande Outro” — o aparato digital onipresente — para monitorar e moldar o comportamento humano de forma sutil e imperceptível.

O objetivo final é alcançar resultados garantidos para seus clientes — anunciantes, seguradoras, políticos e grandes instituições — eliminando, tanto quanto possível, a incerteza humana.

Monitoramento e coleta massiva de dados Monitoramento e coleta massiva de dados


Os efeitos desse modelo de negócio

As próprias pessoas que ajudaram a construir esses projetos demonstram preocupação com os efeitos que essas práticas geram — e ainda podem gerar.

Aza Raskin, que popularizou o conceito de “infinite scroll”; Tristan Harris, ex-especialista em ética de design do Google; Tim Kendall, ex-presidente do Pinterest; Justin Rosenstein, engenheiro que trabalhou no Facebook e no Google; Jeff Seibert, ex-executivo do Twitter; Sandy Parakilas, ex-gerente de operações do Facebook; Chamath Palihapitiya, ex-vice-presidente de crescimento de usuários do Facebook; Guillaume Chaslot, ex-engenheiro do YouTube; entre outros, falam frequentemente sobre:

  • design persuasivo
  • manipulação psicológica
  • mecanismos de vício
  • rolagem infinita
  • comportamento coletivo
  • métricas de engajamento
  • crescimento agressivo
  • efeitos nocivos percebidos pelos próprios executivos
  • recompensa psicológica imediata
  • coleta massiva de dados
  • criação de modelos matemáticos
  • previsão comportamental
  • experiência humana como matéria-prima
  • dinâmica da polarização

Não são apenas críticos externos falando.

São ex-executivos, designers e engenheiros do próprio sistema.


Conclusão

As Big Techs não são apenas grandes empresas de tecnologia que oferecem serviços globalmente e vendem publicidade.

São estruturas que se tornaram capazes de mapear o comportamento humano, tanto social quanto individualmente. Capazes de prever, com eficiência crescente, decisões tomadas por pessoas e grupos acerca dos mais variados assuntos.

O poder das Big Techs não é apenas tecnológico, mas também uma nova ordem econômica que reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais ocultas de extração, previsão e venda.

De forma mais ou menos consciente, transformaram-se em um tipo de poder que, há pouco tempo, não era apenas impossível — era inconcebível. A alta tecnologia que desenvolveram expandiu os horizontes humanos do que se entende por domínio populacional.

Unindo isso ao peso econômico que representam no mundo atual, torna-se difícil compreender os limites dessa capacidade e mais difícil ainda enxergar a posição do homem comum diante desse Leviatã.

O impacto mais profundo desse sistema é a perda da autonomia individual. O homem comum vive uma espécie de troca silenciosa: a internet se tornou essencial para a vida moderna, mas o preço para participar dela é abrir mão da própria privacidade e do controle sobre si mesmo.



Referências