O teste de conformidade de Asch: o peso da opinião coletiva
Estados Unidos, Pensilvânia, Swarthmore College, década de 1950.
Alguns jovens estudantes entram numa sala para participar de um teste extremamente simples: em uma sequência de linhas verticais, dizer qual delas tinha o mesmo tamanho de uma linha de referência.
Um deles percebe que os demais estão errando as respostas repetidamente, mas sempre em conjunto. Inicialmente, estranha a situação e responde corretamente, de acordo com o que está vendo, divergindo do restante do grupo. Contudo, após duas ou três divergências, começa a errar propositalmente junto com os demais.
Esse foi o comportamento mais comum entre os participantes submetidos ao experimento de conformidade de Solomon Asch.
O teste mostra que o ser humano possui uma necessidade social bastante significativa e que, em muitos casos, ela prevalece sobre as próprias percepções pessoais.
Detalhes do experimento
O teste principal era realizado numa sala com:
- cerca de 7 a 9 pessoas;
- todos eram ajudantes do pesquisador;
- apenas 1 pessoa era um verdadeiro participante.
O suposto teste era simples: identificar em voz alta qual das linhas possuía o mesmo tamanho de uma linha de referência.
Ao todo, eram feitas 18 rodadas, das quais 12 eram o verdadeiro experimento. Nessas 12, o grupo de cúmplices dava propositalmente a resposta errada.
As primeiras rodadas eram respondidas corretamente para dar credibilidade ao grupo e ao ambiente.
Resultados
Cerca de 75% das pessoas deram a resposta errada pelo menos uma vez. Ou seja, 3 entre 4 participantes cederam ao grupo em algum momento.
Em média, os participantes respondiam de forma errada, acompanhando o grupo, em 37% das rodadas.
Aproximadamente 25% das pessoas responderam corretamente em todas as rodadas. Ou seja, 1 entre 4 participantes não cedeu à pressão do grupo.
Os resultados não apontaram uma conformidade total, mas sim uma tensão entre percepção individual e pertencimento social.
Participante sob pressão social durante o experimento
Variações do experimento
Quando havia um ajudante respondendo corretamente, a conformidade caía drasticamente: de 37% para cerca de 7,5%.
Isso indica que muitas pessoas não buscavam necessariamente um apoio majoritário, mas simplesmente não queriam estar sozinhas numa posição divergente.
Asch testou os participantes com um único cúmplice, depois com dois, três e mais pessoas. A conformidade aumentava gradualmente até cerca de três ajudantes respondendo errado. Acima disso, a diferença já não era muito significativa.
Ou seja, uma grande multidão não era necessária para criar pressão social. Apenas três pessoas já conseguiam produzir esse efeito.
Quando o participante podia responder anonimamente, escrevendo num papel, a conformidade caía bastante.
Isso sugere que parte do efeito vinha da necessidade de pertencimento social, e não necessariamente de uma crença genuína de que o grupo estava correto.
Quando eram apresentadas linhas com tamanhos mais parecidos, a conformidade aumentava. Isso demonstrava que, diante das respostas erradas do grupo, algumas pessoas começavam a considerar a possibilidade de estarem realmente equivocadas.
Observações dos participantes
Muitos participantes relataram que, durante o teste, sentiram-se:
- ansiosos;
- nervosos;
- desconfortáveis;
- confusos;
- com medo do que os outros pensariam deles;
- isolados socialmente.
Alguns relataram inclusive suor e forte tensão emocional.
Os relatos geralmente apontavam para o desconforto de não estar integrado ao grupo e para a sensação de solidão mesmo estando corretos.
Outros mostravam que alguns participantes acabavam realmente duvidando daquilo que estavam vendo.
Os conceitos do experimento no mundo real
Observando os resultados dos testes realizados por Solomon Asch, é difícil não traçar paralelos com situações vistas na sociedade atual.
Num contexto em que mídia, instituições e redes sociais possuem capacidades técnicas e tecnológicas de influenciar opiniões em larga escala, muitas pessoas acabam se deixando levar por consensos aparentes, mesmo quando eles podem não representar a realidade.
Para parte delas, a moralidade ou a veracidade de uma opinião torna-se menos relevante diante da percepção de que existe uma maioria contrária — ainda que essa maioria possa ser artificial, exagerada ou apenas aparente.
Participante sozinho após o experimento
Conclusão
Não é raro que alguém, ao conhecer o experimento, pense que os participantes eram fracos ou ingênuos. Contudo, o teste não buscava evidenciar fraquezas individuais, mas sim o peso das relações sociais que todo ser humano tende a carregar consigo.
O experimento mostra sobretudo que o sentimento de pertencimento pode alterar o comportamento humano. Que o isolamento psicológico é um recurso poderoso. E que discordar publicamente pode ter um custo emocional e social significativo.
Mas talvez o aspecto mais impressionante do experimento não seja o fato de algumas pessoas mentirem para se sentirem incluídas no grupo.
E sim que muitas começaram a duvidar dos próprios olhos.
Referências
-
Solomon Asch.
Opinions and Social Pressure (1955) -
Solomon Asch.
Studies of Independence and Conformity (1956)