O experimento de Milgram: como pessoas comuns se tornam capazes de crueldade


Com o fim da Idade Média, muitos acreditaram que a humanidade havia ingressado em um período de menor violência e maior empatia nas relações humanas.

No entanto, a Era Moderna surgiu ampliando práticas escravagistas e culminando em eventos como a Revolução Francesa, um dos episódios mais violentos da história.

Já na Era Contemporânea, a Primeira e a Segunda Guerra Mundial inauguraram um cenário de barbárie comparável aos rituais de sacrifício astecas e aos espetáculos do Coliseu romano.

Após a Segunda Guerra Mundial, acordos e tratados foram firmados entre as nações, com a promessa de que atrocidades daquela magnitude não voltariam a ocorrer sem que seus responsáveis fossem severamente punidos.

Ainda assim, para uma civilização que passou a se enxergar como pacificadora, uma pergunta permaneceu:
como foi possível que, em pleno século XX, tantas pessoas comuns — soldados, médicos, políticos, advogados, cientistas, professores — tenham se tornado engrenagens de sistemas capazes de promover barbáries como os campos de concentração, o Holodomor ucraniano e o uso de bombas atômicas?

Os governos, em tempos de guerra, desempenhavam seu papel com o apoio de propaganda massiva, frequentemente desumanizando povos inimigos ou grupos minoritários. Porém, para os mais atentos, a propaganda não ocultava um fato essencial: embora as nações estivessem em guerra, suas populações eram formadas por pessoas comuns — trabalhadores preocupados em cuidar de suas famílias e garantir seu sustento - sem muito poder de decisão quanto às ações do Estado. Ainda assim, a execução de projetos imorais dependia da adesão e participação de uma parcela significativa dessa massa.

A questão central, portanto, era clara:
por que indivíduos comuns colaboram com ações que considerariam imorais em circunstâncias normais?

Auschwitz, Polónia Auschwitz, Polónia


O experimento de Milgram

Foi essa pergunta que levou Stanley Milgram a desenvolver um experimento para testar a hipótese de que atrocidades não decorrem necessariamente de características específicas de um povo, mas de um padrão de obediência à autoridade.

O experimento era simples:

  • Um voluntário era convidado a participar de um estudo sobre memorização.
  • Em um sorteio manipulado, ele assumia o papel de “disciplinador”, enquanto outro participante (um ator) era o “aluno”.
  • Ambos ficavam em salas separadas, mas o disciplinador podia ouvir o aluno.
  • A cada erro do aluno, o disciplinador deveria aplicar um choque elétrico.
  • A intensidade dos choques iniciava em 15 volts e aumentava progressivamente, em incrementos de 15, até atingir 450 volts.
  • Os choques eram falsos, mas o participante não sabia disso.
  • Um pesquisador de jaleco, presente na sala, instruía o voluntário a continuar.

Os resultados foram inquietantes:

  • Cerca de 65% dos participantes aplicaram o nível máximo de 450 volts.
  • Apesar dos pedidos do aluno para interromper e das demonstrações de sofrimento, os participantes continuavam a cumprir as instruções.
  • Quase 100% chegaram a pelo menos 300 volts, ponto em que o “aluno” já não respondia.
  • Muitos demonstraram forte desconforto emocional — ansiedade, medo, risos nervosos — mas ainda assim continuaram.
  • Alguns poucos chegaram a demonstrar satisfação em punir.

Mesmo relutantes, a maioria prosseguiu sob a pressão da autoridade.

Variações do experimento mostraram que a obediência diminuía quando o pesquisador dispensava o jaleco ou adotava uma postura menos formal. Isso sugere que a percepção de autoridade — mais do que sua legitimidade — é decisiva: quanto mais o pesquisador parecia uma pessoa comum, menor era a adesão.


O que os resultados revelam

A partir dos experimentos, algumas conclusões se destacam:

  • A obediência mostrou-se mais determinante do que os princípios e valores pessoais dos participantes: ainda que considerassem a ação errada e imoral, a maioria optou por obedecer a uma autoridade aparente e dar prosseguimento ao que não faria por iniciativa própria.

  • A aparência de autoridade mostrou-se mais determinante do que a autoridade real presente nos elementos do experimento: um ambiente universitário, uma postura formal, uma vestimenta científica e um processo rigoroso foram suficientes para criar um quadro de autoridade forte o bastante para impedir os participantes de agir contra seus princípios.

  • A transferência de responsabilidade para a autoridade: os participantes atribuem aos condutores do experimento a culpa por quaisquer danos decorrentes de suas ações. Daí a frase ‘só estou fazendo meu trabalho’; ou seja, ainda que resulte em algo imoral, a função lhes foi delegada por quem consideram o verdadeiro responsável pelas consequências.

  • A escalada gradual das penalidades reduz a resistência moral: em uma variação na qual os testes já começavam em 150 volts, a obediência dos participantes caiu significativamente.

  • O desconforto não impede a obediência: mesmo diante de intensos conflitos internos, a maioria dos participantes prosseguiu no experimento até níveis elevados de choque.

  • O ambiente influencia significativamente: quanto mais elementos sinalizavam autoridade, maior era a adesão; por outro lado, quando um participante começava a desobedecer e isso era percebido pelos demais, a desobediência também aumentava.


Implicações

Diante dessas observações, torna-se mais claro o quão suscetível é o indivíduo não apenas à autoridade constituída, mas também à colaboração em ações que, embora firam seus princípios, ainda assim são levadas a termo.

Também se observa, na prática, que o ambiente exerce uma influência maior do que geralmente se supõe e, de forma ainda mais preocupante, muitas vezes um ambiente artificial já é suficiente para produzi-la.

O fato de os valores pessoais terem exercido tão pouca influência nesses resultados constitui um alerta importante: talvez esses valores fossem, para muitos participantes, apenas aparências convenientes que, ao menor sinal de pressão, não resistiam ao confronto com uma situação concreta.

A transferência de responsabilidade pode ser um dos problemas mais graves. Não raro, governantes criam leis injustas contra suas próprias populações em benefício próprio; no entanto, essas normas não passariam de palavras no papel se não houvesse toda uma estrutura de indivíduos que acreditam firmemente dever aplicá-las, ainda que contrariem seus princípios e, por vezes, outras leis, apenas por considerarem que devem cumprir ordens e que estão ‘apenas fazendo o seu trabalho’. A possibilidade de desobediência em casos claramente imorais muitas vezes sequer é cogitada, e a responsabilidade direta e pessoal por seus atos é transferida às autoridades superiores.

A justificativa de que alguém está ‘apenas cumprindo ordens’ é frequentemente usada para ações moralmente questionáveis. Porém, essa lógica é difícil de sustentar: se levada ao extremo, ela dilui completamente a responsabilidade individual dentro de qualquer cadeia de comando, independentemente da gravidade dos atos.

O experimento de Milgram* O experimento de Milgram (ilustração)


Considerações finais

Onde os princípios têm força apenas no plano abstrato, e onde a responsabilidade individual é transferida à terceiros, a autoridade encontra terreno fértil para avançar — mesmo em projetos claramente imorais.

O indivíduo comum nunca estave tão exposto a esse risco quanto agora, em um contexto onde as estruturas de poder — sejam elas governamentais ou não — se encontram cada vez mais acima da população, com recursos técnicos e financeiros capazes de exercer um controle sem precedentes sobre a sociedade. A própria natureza desse poder, muitas vezes invisível e difusa, dificulta a identificação de quem, de fato, detém o controle e quem, de fato, é responsável pelas ações que resultam em prejuízos à maioria da população.

Quando esse poder é exercido por um governo, as consequências podem ser catastróficas, resultando em guerras, perseguições políticas e violações generalizadas dos direitos humanos. Nessas circunstâncias, a obediência cega à autoridade pode levar indivíduos comuns a participar de atrocidades que jamais cometeriam por iniciativa própria.

Contudo, mesmo fora do âmbito governamental, o fenômeno da obediência à autoridade representa um risco significativo. Em ambientes corporativos, por exemplo, funcionários podem ser compelidos a participar de práticas antiéticas ou ilegais sob o pretexto de “cumprir ordens” ou “aderir à cultura da empresa”. A pressão para manter o emprego ou obter promoção pode suprimir o senso crítico e a responsabilidade moral, resultando em ações que prejudicam terceiros e violam os próprios valores do indivíduo.

A difusão do poder na sociedade contemporânea cria um ambiente propício para a erosão da responsabilidade individual. Em um mundo interconectado e tecnologicamente avançado, torna-se cada vez mais difícil para o cidadão comum compreender como as decisões são tomadas e quem é verdadeiramente responsável por elas.


Referências

  • Stanley Milgram.
    Obedience to Authority: An Experimental View (1974)