Hiroshima e Nagasaki: A Tragédia Civil da Bomba Atômica
O calor já começava cedo em mais uma segunda-feira comum no Japão.
Em uma pequena casa de madeira, a mãe dobrava roupas ainda mornas vindas do varal, enquanto o pai ajustava o uniforme antes de sair para o trabalho. A guerra já havia mudado muita coisa — faltava comida e havia um medo constante de bombardeios — mas a vida precisava continuar.
As crianças se preparavam para a escola e muitas já estavam nas ruas naquela manhã.
Bondes cruzavam a cidade.
Bicicletas passavam pelas pontes.
Comerciantes levantavam as portas de madeira de pequenas lojas.
Às 8h15, algumas pessoas olharam para o céu ao ouvir o som distante de um avião.
Então veio o clarão.
Sobreviventes o descreveriam mais tarde como “um segundo sol”. Uma luz branco-azulada atravessou janelas, ruas e corpos em uma fração de segundo.
O calor chegou antes do som.
A pele exposta queimou instantaneamente. Sombras de pessoas ficaram marcadas em paredes e escadas pelo flash térmico.
Logo em seguida veio a onda de choque.
Casas explodiram para dentro. Telhados foram arrancados. Vidros atravessaram corpos como lâminas. Um vento brutal percorreu as ruas com velocidade devastadora.
E só depois veio o som.
Um estrondo profundo, impossível de comparar a qualquer outra coisa conhecida.
Em poucos segundos, a cidade desapareceu em meio a fogo, poeira e silêncio.
Dezenas de milhares morreram sem sequer entender o que havia acontecido.
Outros se levantaram queimados, cegos, cobertos de sangue e cinzas, caminhando sem rumo entre ruas que já não existiam.
Hiroshima havia deixado de existir como cidade em menos de um minuto.
Vista aérea de Hiroshima após a explosão
O Projeto Manhattan
O projeto foi criado em 1942 diante do receio de que o regime nazista desenvolvesse uma bomba atômica antes dos Estados Unidos.
Físicos europeus haviam descoberto o processo de fissão nuclear, no qual o núcleo de um átomo é dividido, liberando uma quantidade gigantesca de energia.
Em 1939, Albert Einstein alertou o governo americano sobre o risco de a Alemanha nazista avançar nessa tecnologia.
Ao todo, estima-se que mais de 100 mil pessoas participaram direta ou indiretamente do projeto.
Foram construídos complexos industriais e cidades inteiras dedicadas à produção de urânio enriquecido, plutônio, cálculos e testes nucleares.
Grande parte dos trabalhadores não tinha conhecimento completo do objetivo final, seguindo uma estrutura de compartimentalização semelhante a modelos industriais de larga escala. Apenas cientistas e militares de alto nível tinham visão global do projeto.
Entre os principais nomes estavam Robert Oppenheimer, Leslie Groves, Enrico Fermi, Niels Bohr e Richard Feynman.
Muitos dos cientistas eram refugiados europeus que haviam fugido do nazismo. Após perceberem que a Alemanha estava longe de desenvolver a bomba, parte deles passou a questionar a continuidade do projeto.
O custo estimado foi de cerca de 2 bilhões de dólares da época (aproximadamente 35 bilhões em valores atuais), tornando-se um dos projetos militares mais caros da história.
O teste nuclear Trinity
O teste ocorreu em 16 de julho de 1945, no deserto do Novo México, cerca de 20 dias antes do ataque a Hiroshima.
A explosão iluminou o céu de forma inédita.
Oppenheimer mais tarde lembraria de uma passagem do Bhagavad Gita:
“Agora eu me tornei a Morte, a destruidora de mundos.”
Nuvem em forma de cogumelo segundos após a explosão
A decisão de usar a bomba
Com o sucesso do Projeto Manhattan, o governo dos Estados Unidos precisou decidir sobre o uso da arma.
A decisão final coube ao presidente Harry S. Truman, sem votação pública ou consulta direta ao Congresso.
A Alemanha já havia se rendido, e parte da comunidade científica, incluindo Leo Szilard, se opôs ao uso da bomba contra civis.
Alguns propuseram uma demonstração em área desabitada, mas essa opção foi rejeitada, também em função da disputa geopolítica com a União Soviética.
Estimativas militares indicavam que uma invasão convencional ao Japão poderia custar centenas de milhares de vidas americanas e possivelmente milhões de vidas japonesas.
Por que Hiroshima e Nagasaki
As cidades foram escolhidas por um comitê específico do Projeto Manhattan, o Target Committee.
Os critérios incluíam valor militar, industrial, densidade populacional e impacto psicológico.
Hiroshima abrigava instalações militares e centros logísticos importantes, além de possuir geografia favorável ao impacto da bomba. Contudo, era densamente povoada e milhares de famílias viviam na região central atingida.
Nagasaki era um centro industrial e portuário relevante. Mas também era um grande centro populacional e nitidamente a cidade mais católica do Japão, fato que levantou questionamentos sobre as intenções americanas por parte de alguns críticos.
Ambas as cidades estavam relativamente preservadas de bombardeios anteriores, o que aumentava o impacto visual e psicológico da destruição.
As vítimas civis dos ataques
Os documentos militares deixam claro que os planejadores entendiam que os ataques causariam, no mínimo, dezenas de milhares de vítimas civis.
O objetivo era provocar impacto psicológico massivo e acelerar a rendição japonesa.
A estratégia não era cirúrgica, mas de destruição total em larga escala.
Basicamente, o terror causado às custas de vidas civis seria o recurso usado para obtenção do resultado desejado. Praticamente a mesma lógica de grupos terroristas pelo mundo.
Em Hiroshima, cerca de 75 mil pessoas morreram imediatamente. Até o final de 1945, o número total de mortes chegou a aproximadamente 140 mil.
Em Nagasaki, cerca de 40 mil morreram de forma imediata, chegando a aproximadamente 70 mil no mesmo período.
No total, estima-se cerca de 300 mil mortes combinadas entre as duas cidades ao longo do tempo, considerando efeitos diretos e indiretos.
Os sobreviventes sofreram efeitos graves da radiação, incluindo queimaduras, náuseas, febre, queda de cabelo, sangramentos e enfraquecimento geral.
Nos anos seguintes, houve aumento de casos de câncer, leucemia, catarata e outras doenças associadas à exposição radioativa. Também foram registrados impactos em gestantes, incluindo abortos e malformações.
Sombra de uma pessoa criada pelo flash da explosão
Conclusão
O desenvolvimento e o uso das bombas atômicas na Segunda Guerra Mundial permanecem como um dos episódios mais controversos da história moderna.
O projeto foi inicialmente motivado pelo temor de uma arma nazista, mas continuou mesmo após a derrota da Alemanha, agora sob novas justificativas estratégicas.
O julgamento moral dessas decisões parece, de certa forma, ter se diluído no tempo. Enquanto outros crimes de guerra foram amplamente julgados em tribunais internacionais, o uso das bombas nucleares não passou por um processo equivalente.
Não houve um julgamento como em Nuremberg; ninguém foi condenado por crimes de guerra. Ao menos uma centena de milhares de mortes civis imediatas e outras tantas mortes subsequentes não foram suficientes para que a opinião pública condenasse os atos americanos.
Famílias inteiras que viviam suas vidas normalmente foram privadas de sua existência em segundos, porque alguém decidiu que essa seria uma medida necessária e, principalmente, porque não havia meios de retaliação.
Por mais que as guerras sempre tenham sido cruentas e muitas vezes imorais, em tempos passados elas eram realizadas em campos de batalha e longe da população civil. Muitas não contavam com trabalhadores e pais de família em suas linhas de frente, pois entendia-se que esse era um papel de soldados profissionais que optaram por essa carreira.
A Segunda Guerra Mundial começou com a Blitzkrieg alemã, que mudou toda a dinâmica de combate de trincheiras e aumentou os riscos para as populações civis, e terminou com o impacto de duas bombas nucleares que dizimaram duas cidades inteiras e seus habitantes, incluindo mulheres, crianças, idosos e doentes que buscavam sobreviver aos problemas que o conflito já havia trazido para todo o Japão.
Não importa o que os cálculos apontavam antes do lançamento dos artefatos, nem as previsões de continuidade do conflito — nada justifica o que foi feito neste episódio. Pessoas comuns pagaram com suas vidas e com as de seus familiares por uma dívida que não era delas.
Referências
- Enciclopaedia Britannica
https://www.britannica.com/event/atomic-bombings-of-Hiroshima-and-Nagasaki - Atomic Archive
https://www.atomicarchive.com/resources/documents/med/med_chp10.html